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História da Dieta Cetogênica  

Em aproximadamente 500 a.C., na era Hipocrática, os indivíduos com epilepsia eram submetidos a uma condição de jejum prolongado visando controle das crises. Nesse jejum, permitia-se apenas ingestão de água a fim de manter a hidratação. Embora fosse inviável manter o indivíduo em jejum, há relatos de que as crises epilépticas apresentavam redução significativa. Este tratamento foi mantido por séculos, havendo passagens bíblicas que mencionaram a epilepsia (Marcos 9:17-27 e Lucas 9:38-42) (WHELESS, 2008; MAGIORKINIS et al., 2014). Em Mateus 17:14-21, Jesus recomenda o jejum e a oração como forma de tratamento àqueles que apresentavam crises epilépticas:

Hipócrates de Cós (460 – 370 a.C) 

O Menino Lunático

“E, quando se uniram ao povo, achegou-se a ele um homem, que dobrando os joelhos, suplicava: ”Senhor, tem piedade de meu filho! Ele é epiléptico e tem ataques tão fortes que muitas vezes chega a cair no fogo ou na água. Apresentei-o a teus discípulos mas eles não puderam curá-lo”. E Jesus respondeu: “Ó gente incrédula e perversa! Até quando terei de estar convosco? Até quando terei de suportai-vos? Trazei-o para cá!”. E Jesus o intimou e o demônio saiu, ficando o menino curado na mesma hora. Em seguida os discípulos se achegaram de Jesus e lhe perguntaram em particular: “Por que não pudemos nós expulsar este demônio?”. Falou-lhes ele: “Por causa de vossa pouca fé. Em verdade vos digo: se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a este monte: “sai daqui para ali e ele iria, e nada vos seria impossível. Mas esta casta de demônios não se expulsa senão pela oração e pelo jejum.” (A BÍBLIA, 1982).

Em 1911, dois médicos parisienses (Guelpa e Marie) desenvolveram um estudo sobre o tratamento da epilepsia com o jejum prolongado, submetendo 20 crianças e adultos a tal condição e relataram que, durante o tratamento, as crises demonstraram-se menos intensas (GUELPA, MARIE; 1911). Ao final da Primeira Guerra Mundial, o educador físico americano Bernarr Macfadden publicou na revista “Pshysical Culture” uma matéria que relatava o benefício do jejum de três dias a três semanas no tratamento e prognóstico de algumas doenças, incluindo a epilepsia (WHELESS, 2008).

Em 1921 houve a publicação dos dois primeiros artigos sobre o tema. O endocrinologista do Hospital Presbiteriano de Nova York, H. Rawle Geyelin se tornou reconhecido por publicar no periódico American Medical Association Convention sobre a melhora cognitiva ocorrida durante o jejum prolongado (GEYELIN, 1921). Ainda nesse ano, o Dr. Russell M. Wilder da Mayo Clinic, iniciou os primeiros argumentos para oferecer outras formas de tratamento além do jejum, que, embora sua eficácia já tivesse sido descrita, seu princípio inviabilizava o manejo por longos períodos. No mesmo ano, o Dr. Wilder publicou no “The Clinic Bulletin” um artigo que relacionava o estado cetótico do indivíduo, identificado pela cetonúria, como explicação para o tratamento da epilepsia (“The effect of ketonemia on the course of epilepsy”) (WILDER, 1921).

Dr. Russel M. Wilder

A partir dos estudos envolvendo a produção de corpos cetônicos, o Dr. Wilder elaborou uma dieta cujo objetivo era mimetizar as alterações metabólicas causadas durante o jejum prolongado e a nomeou de “Dieta Cetogênica”. Ele propôs que essa forma de tratamento não farmacológico, em comparação ao jejum prolongado, seria mais efetiva devido à viabilidade em ser mantida por um período maior (WHELESS, 2008; MAGIORKINIS et al.,2014).

            Em 1925, o Dr. M. G. Peterman propôs o cálculo da DC, sendo: 1g/kg de proteína, 15g de carboidrato por dia e o restante, alimentos fonte de gordura. O Dr. Peterman também publicou estudos envolvendo a melhora nas questões comportamentais e no perfil cognitivo dos pacientes com a dieta. Em 1928 os médicos de Harvard Medical School, Dr. Stanley Cobb e Dr. William Gordon Lennox publicaram a monografia intitulada “Epilepsy from the Standpoint of Physiology and Treatment”, informando que as crises epilépticas apresentavam redução na frequência após 2 a 3 dias de jejum devido a alteração no metabolismo e que a ausência de alimentos e carboidratos conduzia o organismo a utilizar a gordura como fonte energética (LENNOX, COBB; 1928).

            O auge da indicação da DC permaneceu entre 1921 até aproximadamente 1937. Em 1938, com a descrição da fenitoína pelos médicos Merritt e Putnam, a DC caiu em desuso. Entre 1970 e 2000, somente foram publicados 2 a 8 artigos por ano, tamanha era a importância dada aos novos FAEs (WHELESS, 2008; MAGIORKINISet al., 2014). Enquanto novos FAEs eram desenvolvidos, em 1971, o Dr. Peter Huttenlocker, da Universidade de Chicago, introduziu o triglicerídeo de cadeia média (TCM) a fim de tornar a DC mais palatável. A DC retomou sua força através da mídia após o programa “Dateline” da emissora TV NBC publicar uma matéria sobre Charlie Abrahams na década de 1990, um menino de dois anos com síndrome de Doose, filho do diretor de filme Jim Abrahams. Charlie apresentou remissão total das crises após o segundo dia de tratamento com a DC no Hospital Johns Hopkins. Atendido pelo Dr. John M. Freeman e pela nutricionista Millicent Kelly (WHELESS, 2008).

A partir dos estudos envolvendo a produção de corpos cetônicos, o Dr. Wilder elaborou uma dieta cujo objetivo era mimetizar as alterações metabólicas causadas durante o jejum prolongado e a nomeou de “Dieta Cetogênica”. Ele propôs que essa forma de tratamento não farmacológico, em comparação ao jejum prolongado, seria mais efetiva devido à viabilidade em ser mantida por um período maior (WHELESS, 2008; MAGIORKINIS et al.,2014).

            Em 1925, o Dr. M. G. Peterman propôs o cálculo da DC, sendo: 1g/kg de proteína, 15g de carboidrato por dia e o restante, alimentos fonte de gordura. O Dr. Peterman também publicou estudos envolvendo a melhora nas questões comportamentais e no perfil cognitivo dos pacientes com a dieta. Em 1928 os médicos de Harvard Medical School, Dr. Stanley Cobb e Dr. William Gordon Lennox publicaram a monografia intitulada “Epilepsy from the Standpoint of Physiology and Treatment”, informando que as crises epilépticas apresentavam redução na frequência após 2 a 3 dias de jejum devido a alteração no metabolismo e que a ausência de alimentos e carboidratos conduzia o organismo a utilizar a gordura como fonte energética (LENNOX, COBB; 1928).

            O auge da indicação da DC permaneceu entre 1921 até aproximadamente 1937. Em 1938, com a descrição da fenitoína pelos médicos Merritt e Putnam, a DC caiu em desuso. Entre 1970 e 2000, somente foram publicados 2 a 8 artigos por ano, tamanha era a importância dada aos novos FAEs (WHELESS, 2008; MAGIORKINISet al., 2014). Enquanto novos FAEs eram desenvolvidos, em 1971, o Dr. Peter Huttenlocker, da Universidade de Chicago, introduziu o triglicerídeo de cadeia média (TCM) a fim de tornar a DC mais palatável. A DC retomou sua força através da mídia após o programa “Dateline” da emissora TV NBC publicar uma matéria sobre Charlie Abrahams na década de 1990, um menino de dois anos com síndrome de Doose, filho do diretor de filme Jim Abrahams. Charlie apresentou remissão total das crises após o segundo dia de tratamento com a DC no Hospital Johns Hopkins. Atendido pelo Dr. John M. Freeman e pela nutricionista Millicent Kelly (WHELESS, 2008).

Dr. John M. Freeman

Millicent Kelly

Charlie Abrahams

Após a tentativa frustrada do uso de vários FAEs anterior ao sucesso do tratamento com a DC, Jim Abrahams, em 1994 fundou a organização “Charlie Foundation” a fim de divulgar este tratamento a outras famílias. Um fato interessante é que em 1997, Jim Abrahams dirigiu o filme chamado “First do no harm” com a atriz Maryl Streep sobre a história da trajetória da epilepsia e a descoberta da DC (WHELESS, 2008).

Jim Abrahams 

Meryl Streep e Jim Abrahams

O título do filme foi traduzido para o português como "Pela Vida de Meu Filho". Clique nas fotos abaixo para lhe direcionar ao filme no Youtube.

Charlie manteve o controle das crises e recebeu uma homenagem em 1994 com o surgimento da  "Charlie Foundation". Esta organização foi idealizada por seu pai, Jim Abrahams, com o objetivo de divulgar e disseminar conceitos técnicos, científicos e práticos sobre o tratamento da epilepsia com dieta cetogênica. 

Charlie Abrahams e sua família

Em 2016 tive a honra de conhecer Jim Abrahams e sua esposa, mãe de Charlie, durante um congresso sobre terapias nutricionais cetogênicas, denominado "5th Global Symposium on Ketogenic Therapies" que ocorreu em Banff, Canadá.

Dra. Laura Guilhoto, Jim Abrahams e Marcela Gregório

Dra. Laura Guilhoto, Nancy Abrahams e Marcela Gregório

Texto por:

Marcela Gregório

Nutricionista – CRN3: 42201

Publicação: 19/05/2018